Judaísmos Ortodoxos

O movimento conhecido como Judaísmo Ortodoxo – no singular, mas que, aqui, é pluralizado em reconhecimento de sua diversidade – baseia-se nas compreensões teológicas, costumes e padrões sociais daqueles judeus ashkenazim que declaram ser seguidores estritos da Halakhah (a Lei Judaica).

De acordo com Solomon (2015), o uso do termo Ortodoxia, em relação ao Judaísmo, apareceu pela primeira vez em 1792, num livro chamado “Leviathan, oder über Religion in Rücksicht des Judentums”, escrito por Saul ben Anschel Jaffe, e foi novamente utilizado por Abraham Furtado em 1807, nos debates sobre as propostas de Napoleão para a emancipação judaica. Logo em seguida foi adotado pelos judeus reformistas alemães para se referirem, de forma pejorativa, aos seus oponentes tradicionalistas e, posteriormente, foi adotado pelos próprios tradicionalistas como uma autoidentificação.

Os movimentos chamados de “ortodoxos” se originaram na primeira metade do século XIX – inicialmente na Hungria e posteriormente na Alemanha – em resposta ao modernismo judaico que deu origem ao(s) Judaísmo(s) Reformista(s). Assim, deve-se ter o cuidado de não confundir o(s) Judaísmo(s) Ortodoxo(s) com outras formas de Judaísmo tradicionalista, como as praticadas em outras partes do mundo não-ashkenazi (como entre os judeus sefaradi ou mizrahi). A Ortodoxia é apenas uma expressão do Judaísmo tradicionalista. O(s) Judaísmo(s) Ortodoxo(s) é/são criação da cultura e religiosidade judaica ashkenazi, com base nas experiências históricas dos judeus da Europa Central e Oriental a partir da Modernidade – e da forma como leram filosófica e teologicamente essas experiências. Assim, histórica e tecnicamente, judeus sefaradi ou mizrahi não são “ortodoxos” – apesar de o termo “ortodoxo” hoje ser utilizado como sinônimo de “tradicionalista” pela maioria dos judeus (apesar da imprecisão histórica desse uso).

O sistema teológico ortodoxo se baseia na ideia de que a Torah, em sua totalidade, foi entregue por Deus a Moisés no Monte Sinai. A maioria dos judeus que se consideram ortodoxos aceita a autoria divina tanto da Lei Escrita quanto da Lei Oral. Assim, para eles, toda a Lei Judaica resulta direta ou indiretamente da revelação divina, e os judeus estariam obrigados a viver de acordo com essa lei, como interpretada pelos rabinos e transmitidas por códigos autorizados (como o Shulkhan Arukh).

Katzburg (2007) chama a atenção para o fato de que “ortodoxia” seja um termo incorreto para o movimento, já que a orientação religiosa do mesmo não enfatiza a confissão de um conjunto de dogmas bem definidos, mas sim a submissão à autoridade da Halakhah.

 

Referências

KATZBURG, Nathaniel. Orthodoxy. In: SKOLNIK, Fred; BARENBAUM, Michael (eds.). Encyclopaedia Judaica, Vol. 15. 2.ed. Farmington Hills, EUA: Thomson Gale, 2007.

SOLOMON, Norman. Historical Dictionary of Judaism. 3.ed. Lanham, EUA: Rowman & Littlefield, 2015.

Quara’im: Os Caraítas

O movimento Caraíta (do hebraico Qara’im Ba’alei ha-Mikra “leitores da Escritura”) é marcada por uma ruptura fundamental com o Judaísmo Rabínico, baseada na rejeição da autoridade da Lei Oral, como compreendida na tradição talmúdica-rabínica, e no retorno exclusivo ao texto bíblico escrito.

História e Origens

O movimento consolidou-se na Babilônia no século VIII d.C., em um período de grande efervescência intelectual sob o domínio islâmico. A figura central na fundação foi Anan ben David, membro de uma das famílias líderes da elite judaica babilônica. Relatos medievais sugerem que o movimento nasceu de uma disputa política: Anan teria sido preterido para o cargo de Exilarca (líder político da comunidade no exílio) em favor de seu irmão mais novo e, em resposta, liderou uma rebelião contra o establishment rabínico.

O Caraísmo foi influenciado por debates teológicos islâmicos da época, onde scripturalistas islâmicos rejeitavam a autoridade da tradição oral (hadith) em favor apenas do Alcorão. O movimento se espalhou rapidamente pelo Oriente Médio, Egito e Pérsia, tornando-se uma força intelectual significativa. No século X, os Caraítas estabeleceram uma importante academia em Jerusalém e ficaram conhecidos como os “Enlutados de Sião” por sua dedicação à cidade. Posteriormente, o movimento chegou à Europa Oriental, com comunidades fortes na Crimeia, Lituânia e Polônia.

Diferenças Fundamentais e Práticas

A principal distinção entre judeus caraítas e rabínicos reside na fonte de autoridade religiosa:

  • Rejeição da Torah Oral: Os Caraítas rejeitam categoricamente a Mishnah, o Talmud e qualquer autoridade exclusiva dos rabinos como intérpretes da lei.

  • Literalismo Bíblico: Eles defendem o direito e a responsabilidade de cada indivíduo ler e interpretar a Bíblia Hebraica (Tanakh) por conta própria.

  • Rigorismo: Em muitos aspectos, as leis caraítas são mais rígidas. Por exemplo, eles interpretam a proibição de queimar fogo no Shabat literalmente, o que historicamente os levava a comer comida fria e permanecer no escuro durante o sábado, ao contrário dos judeus rabínicos que permitem o uso de fogo aceso antes do início do dia. Eles também não celebram o Hanukkah, por não ser uma festa prescrita na Torah.

O Caraísmo Hoje

O movimento sobreviveu a séculos de polêmicas e perseguições, mantendo-se como uma comunidade distinta. No século XIX, na Rússia, foram classificados como uma religião separada para evitar as perseguições impostas aos judeus rabínicos. Durante o Holocausto, a maioria dos Caraítas foi poupada após estudiosos judeus afirmarem aos nazistas que eles não eram etnicamente judeus, mas apenas uma seita religiosa.

Atualmente, estima-se que existam entre 20.000 e 25.000 Caraítas no mundo. A grande maioria vive em Israel, onde possuem um sistema de tribunais rabínicos independente e reconhecido pelo Estado. Além de Israel, existem pequenas comunidades nos Estados Unidos (especialmente na Califórnia), Lituânia, Turquia e Egito.

Embora continuem a rejeitar a autoridade talmúdica, os Caraítas hoje são vistos como uma “civilização religiosa paralela”, mantendo tradições visuais próprias, como o nó diferenciado em seus tzitzit (franjas rituais).

Fontes

HOFMAN, Shlomo. Karaites. In: SKOLNIK, Fred; BARENBAUM, Michael (eds.). Encyclopaedia Judaica, Vol. 11. 2.ed. Farmington Hills, EUA: Thomson Gale, 2007.

LUPOVITCH, Howard N. Jews and Judaism in World History. Nova York: Routledge, 2010. [Série: Themes in World History]

SOLOMON, Norman. Historical Dictionary of Judaism. 3.ed. Lanham, EUA: Rowman & Littlefield, 2015.

Quem é judeu/judia?

A questão da identidade judaica, no mundo contemporâneo, é complexa por envolver não apenas as crenças e as filiações religiosas, mas também as identidades culturais e nacionais daquelas pessoas que se identificam como judias. É importante enfatizar, aqui, que o Judaísmo é mais do que apenas uma “religião”, se este termo for compreendido da maneira como é pela maioria dos ocidentais: diferentemente do contexto cristão (dominante nas sociedades europeias e americanas, por exemplo), onde “religião” se refere apenas a crenças e/ou práticas religosas, o termo, para judeus, inclui o sentido também étnico. E isso tem uma origem na própria experiência histórica do povo judeu.

Na modernidade, a partir do século XVIII, à medida que as sociedades europeias se tornaram cada vez mais laicizadas, ou culturalmente menos controladas pelas autoridades religiosas, o mesmo ocorreu entre os judeus – especialmente entre aqueles residentes na Europa Ocidental e, posteriormente, na América do Norte. A laicização de sociedades da Europa Ocidental e da América do Norte é, em grande parte, responsável pela grande diversidade que se originou entre os judeus daquelas regiões, resultando nos inúmeros movimentos religiosos judaicos ocidentais (especificamente entre os ashkenazim – judeus originários da França, Alemanha e Europa Oriental). Por seus contextos socioculturais e históricos distintos, outros grupos judaicos, de outras regiões do mundo, não desenvolveram a mesma diversidade, mantendo-se mais próximos dum tradicionalismo judaico rabínico – por exemplo, os sefaradim (os judeus originários da Península Ibérica), mizrahim (os judeus do Oriente Médio), italkim (os judeus da Península Itálica), parsim (os judeus persas), bukharim (judeus da Ásia Central) etc – ou não-rabínico, como os quara’im.

Apesar de ainda existir uma preocupação com o conceito tradicional de identidade (biológica) judaica – que se baseia na noção de “matrilinearidade” = é judia/judeu quem nasceu de mãe judia –, outras compreensões se desenvolveram entre as comunidades judaicas modernas. Assim, muitos judeus modernos se veem como judeus mesmo rejeitando, por exemplo, a obediência à Lei Judaica ou mesmo que não estejam filiados a nenhuma sinagoga/templo/congregação judaica. Sua identidade como judeus se torna uma questão de autoidentificação ou identidade étnica: como eles percebem-se a si mesmos, como os outros os percebem, e como a família e a comunidade judaica impactaram o desenvolvimento de suas identidades pessoais.

Resumidamente, as diferentes compreensões sobre quem é considerado judia ou judeu são as seguintes:

  • O(s) Judaísmo(s) Ortodoxo(s), assim como as tradições sefaradi e mizrahi e todas as demais não-ashkenazi, só reconhece(m) como judeus as pessoas que nasceram de mãe judia (=matrilinearidade) ou que se converteram ao Judaísmo de acordo com sua compreensão da Halakhah.

  • O(s) Judaísmo(s) Masorti, como o(s) Ortodoxo(s), só reconhece(m) como judeus aqueles que nasceram de mãe judia ou que formalmente se converteram ao Judaísmo.

  • O(s) Judaísmo(s) Reformista(s) – incluindo os Judaísmos Liberais/Progressistas de fora da América do Norte –, por sua vez, além de abraçar(em) a noção de matrilinearidade tradicional, também considera(m) alguém judeu/judia mesmo que apenas seu pai seja judeu (=patrilinearidade) e essa pessoa tenha sido criada como judeu/judia. Também considera(m) conversos como judeus, e tem sido o(s) movimento(s) judaico(s) que, tradicionalmente, mais têm recebido conversos ao longo dos séculos XX e XXI.

  • O(s) Judaísmo(s) Reconstrucionista(s), como um todo, abraça(m) a matrilinearidade como regra geral, mas algumas congregações reconstrucionistas também aceitam a patrilinearidade. Também aceitam conversos.

  • O(s) Judaísmo(s) Humanístico(s) é/são o(s) movimento(s) judaico(s) com a definição mais ampla da identidade judaica: judeu é alguém com ascendência judaica ou qualquer pessoa que se declare como judeu e que se identifique com a história, valores éticos, cultura, civilização, comunidade e com o destino do povo judeu.

     

    Obs: O plural, acima, é utilizado como reconhecimento da diversidade de posições e práticas mesmo no interior de cada um dos diferentes movimentos judaicos.

Judaicidade יַהֲדוּת