Gibson Da Costa
O Judaísmo Masorti (termo hebraico para “tradicional”) ou Conservative (como é predominantemente conhecido na América do Norte – sendo traduzido no Brasil como “Conservativo” [e não como “conservador”]) representa a corrente centrista e moderada do judaísmo moderno. O movimento busca um equilíbrio entre a fidelidade rigorosa à tradição e à lei religiosa (Halakhah) e a capacidade de adaptação às transformações históricas, sociais e científicas do mundo contemporâneo.
Origens Históricas
As raízes intelectuais do movimento surgiram no século XIX na Alemanha com a Escola Positivo-Histórica (positiv-historisches Judentum), idealizada pelo rabino e acadêmico Zacharias Frankel (1801–1875). Em 1845, na Conferência Rabínica de Frankfurt, Frankel rompeu publicamente com o movimento Reformista quando a maioria dos participantes votou que o uso do hebraico na liturgia não era “objetivamente necessário”. Em 1854, Frankel fundou o Jüdisch-Theologisches Seminar em Breslau, combinando a observância haláquica com a pesquisa científica e acadêmica crítica da tradição (Wissenschaft des Judentums).
O movimento ganhou expressão de massa nos EUA no final do século XIX, estruturando-se como reação ao radicalismo da Plataforma de Pittsburgh (1885) aprovada pelos reformistas. Em 1886–1887, líderes tradicionalistas como Sabato Morais, Alexander Kohut e H. Pereira Mendes fundaram o Jewish Theological Seminary of America (JTS) em Nova York para formar rabinos tradicionalistas adaptados à realidade americana.
A partir de 1902, sob a presidência do erudito Solomon Schechter, o JTS tornou-se o centro intelectual do movimento. Schechter articulou o conceito fundamental de Klal Yisrael ou Catholic Israel (“Israel Católico/Universal”), estabelecendo que a autoridade para a interpretação e evolução da lei judaica não reside em um dogma estático, mas na consciência e na prática coletiva da comunidade judaica observante.
Em 1913, fundou-se a United Synagogue of America. Com a expansão para fora da América do Norte (incluindo Israel, América Latina e Europa), o movimento adotou oficialmente o nome Masorti para reafirmar seu compromisso com a tradição viva do povo judeu.
Crenças Gerais
Natureza Evolutiva da Halakhah: O Judaísmo Masorti/Conservativo afirma que a Halakhah é vinculativa e indispensável para a vida judaica, mas reconhece que ela sempre se desenvolveu de forma dinâmica ao longo da história em resposta aos novos contextos socioculturais.
Revelação e Transmissão Humana: Ao contrário do conceito ortodoxo de ditado verbal literal e inalterável no Sinai (Torah min HaShamayim), o movimento entende a revelação como um encontro divino cuja transmissão e registro contaram com a participação ativa de seres humanos. Rejeita-se tanto o fundamentalismo literalista quanto o relativismo desprovido de norma legal.
Autoridade da Comunidade (Klal Yisrael): A legitimidade das mudanças e da continuidade haláquica baseia-se no consenso da comunidade de judeus que vivem e praticam o judaísmo ativamente.
Pluralismo Teológico (Emet Ve-Emunah): Em 1988, o movimento publicou a declaração oficial de princípios Emet Ve-Emunah (“Verdade e Fé”), que formalizou um pluralismo consciente, acolhendo desde visões teológicas tradicionais sobre a revelação até abordagens naturalistas e civilizacionais (como o Reconstrucionismo de Mordecai Kaplan).
Práticas Características
Observância do Shabbat e Kashrut: O movimento mantém a obrigatoriedade da guarda do Shabbat e do cumprimento das leis alimentares (Kashrut). Decisões do Comitê de Leis e Padrões Judaicos (Committee on Jewish Law and Standards – CJLS) introduziram adaptações haláquicas específicas, tais como a permissão para dirigir à sinagoga no Shabbat caso a distância impeça a participação no culto público (1950) e a autorização para o consumo de certos peixes com escamas (como o peixe-espada) ou queijos sob critérios específicos, mantendo a proibição estrita de alimentos não kosher e a separação de carne e leite.
Egalitarismo de Gênero e Ordenação Feminina: A inclusão das mulheres no ritual evoluiu gradualmente: adoção de assentos mistos nas sinagogas; criação da cerimônia de Bat Mitzvah por Mordecai Kaplan em 1922; inclusão das mulheres no quorum de oração (minyan) e a concessão de chamadas à Torah (aliyot) a partir de 1973. Em 1983, o JTS aprovou a ordenação de mulheres como rabinas (culminando na ordenação da Rabina Amy Eilberg em 1985) e posteriormente como cantoras (chazzanot).
Liturgia Tradicional em Hebraico: Os serviços religiosos preservam a estrutura e a extensão da liturgia tradicional hebraica. Livros de oração do movimento (como o Siddur Sim Shalom) adotam modificações igualitárias, como a revisão das bençãos matinais (“que me fez à Sua imagem”) e a inclusão opcional das Matriarcas (Imahot: Sara, Rebeca, Raquel e Lia) ao lado dos Patriarcas.
Sionismo e Aliyah: O movimento Masorti é profundamente sionista, promovendo a centralidade do Estado de Israel e incentivando a aliyah e o estudo do hebraico.
Bibliografia
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