Quara’im: Os Caraítas

O movimento Caraíta (do hebraico Qara’im Ba’alei ha-Mikra “leitores da Escritura”) é marcada por uma ruptura fundamental com o Judaísmo Rabínico, baseada na rejeição da autoridade da Lei Oral, como compreendida na tradição talmúdica-rabínica, e no retorno exclusivo ao texto bíblico escrito.

História e Origens

O movimento consolidou-se na Babilônia no século VIII d.C., em um período de grande efervescência intelectual sob o domínio islâmico. A figura central na fundação foi Anan ben David, membro de uma das famílias líderes da elite judaica babilônica. Relatos medievais sugerem que o movimento nasceu de uma disputa política: Anan teria sido preterido para o cargo de Exilarca (líder político da comunidade no exílio) em favor de seu irmão mais novo e, em resposta, liderou uma rebelião contra o establishment rabínico.

O Caraísmo foi influenciado por debates teológicos islâmicos da época, onde scripturalistas islâmicos rejeitavam a autoridade da tradição oral (hadith) em favor apenas do Alcorão. O movimento se espalhou rapidamente pelo Oriente Médio, Egito e Pérsia, tornando-se uma força intelectual significativa. No século X, os Caraítas estabeleceram uma importante academia em Jerusalém e ficaram conhecidos como os “Enlutados de Sião” por sua dedicação à cidade. Posteriormente, o movimento chegou à Europa Oriental, com comunidades fortes na Crimeia, Lituânia e Polônia.

Diferenças Fundamentais e Práticas

A principal distinção entre judeus caraítas e rabínicos reside na fonte de autoridade religiosa:

  • Rejeição da Torah Oral: Os Caraítas rejeitam categoricamente a Mishnah, o Talmud e qualquer autoridade exclusiva dos rabinos como intérpretes da lei.

  • Literalismo Bíblico: Eles defendem o direito e a responsabilidade de cada indivíduo ler e interpretar a Bíblia Hebraica (Tanakh) por conta própria.

  • Rigorismo: Em muitos aspectos, as leis caraítas são mais rígidas. Por exemplo, eles interpretam a proibição de queimar fogo no Shabat literalmente, o que historicamente os levava a comer comida fria e permanecer no escuro durante o sábado, ao contrário dos judeus rabínicos que permitem o uso de fogo aceso antes do início do dia. Eles também não celebram o Hanukkah, por não ser uma festa prescrita na Torah.

O Caraísmo Hoje

O movimento sobreviveu a séculos de polêmicas e perseguições, mantendo-se como uma comunidade distinta. No século XIX, na Rússia, foram classificados como uma religião separada para evitar as perseguições impostas aos judeus rabínicos. Durante o Holocausto, a maioria dos Caraítas foi poupada após estudiosos judeus afirmarem aos nazistas que eles não eram etnicamente judeus, mas apenas uma seita religiosa.

Atualmente, estima-se que existam entre 20.000 e 25.000 Caraítas no mundo. A grande maioria vive em Israel, onde possuem um sistema de tribunais rabínicos independente e reconhecido pelo Estado. Além de Israel, existem pequenas comunidades nos Estados Unidos (especialmente na Califórnia), Lituânia, Turquia e Egito.

Embora continuem a rejeitar a autoridade talmúdica, os Caraítas hoje são vistos como uma “civilização religiosa paralela”, mantendo tradições visuais próprias, como o nó diferenciado em seus tzitzit (franjas rituais).

Fontes

HOFMAN, Shlomo. Karaites. In: SKOLNIK, Fred; BARENBAUM, Michael (eds.). Encyclopaedia Judaica, Vol. 11. 2.ed. Farmington Hills, EUA: Thomson Gale, 2007.

LUPOVITCH, Howard N. Jews and Judaism in World History. Nova York: Routledge, 2010. [Série: Themes in World History]

SOLOMON, Norman. Historical Dictionary of Judaism. 3.ed. Lanham, EUA: Rowman & Littlefield, 2015.

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