Gibson Da Costa

Os Treze Princípios de Fé (Shloshah Asar Ikkarim) foram formulados pelo filósofo, médico e codificador rabínico Moshê ben Maimon (mais conhecido como Maimônides ou Rambam, 1135–1204) em seu comentário em árabe à Mishnah (Kitāb al-Sirāj), especificamente na introdução ao capítulo 10 (conhecido como Perek Helek) do tratado talmúdico Sanhedrin, por volta de 1160–1168.

Tratou-se da primeira tentativa sistemática de estabelecer uma base dogmática e credal formal no judaísmo. Maimônides propôs esses postulados como os requisitos conceituais mínimos para a fé judaica autêntica. Para ele, quem aceita e internaliza esses treze fundamentos pertence plenamente à congregação de Israel e tem assegurada sua parte no Mundo Vindouro (Olam Ha-Ba); por outro lado, rejeitar deliberadamente qualquer um deles exclui o indivíduo do corpo comunitário como herege ou apóstata.

Os Treze Princípios de Maimônides

1. A Existência do Criador

Crença firme de que Deus existe, é o primeiro ser, autor, sustentador e guia de todas as coisas criadas. Ele é a causa primária necessária de toda a realidade, e todos os seres dependem d’Ele para sua existência.

2. A Unidade Absoluta de Deus

Deus é absolutamente uno e indivisível. Sua unidade é única e incomparável a qualquer outra forma de unicidade existente no universo material ou na linguagem comum.

3. A Incorporeidade de Deus

Deus não possui corpo, matéria, forma espacial ou atributos físicos, tais como movimento, repouso ou limites. Qualquer linguagem antropomórfica empregada nas Escrituras bíblicas (como “mão de Deus” ou “olhos de Deus”) consiste em mera metáfora ou recurso pedagógico para facilitar a compreensão humana.

4. A Eternidade de Deus

Deus é o primeiro e o último. Ele transcende o tempo, precedeu toda a existência criada e existirá permanentemente mesmo após o fim de tudo.

5. O Culto e Oração Exclusivos a Deus

Somente o Criador deve ser adorado, louvado e invocado em oração. É expressamente proibido rezar a anjos, astros celestes, intermediários ou a qualquer outra força criada.

6. A Veracidade da Profecia

Crença na realidade da profecia e de que certas almas humanas excepcionalmente refinadas alcançam a perfeição moral e intelectual necessária para receber revelações divinas verdadeiras.

7. A Supremacia da Profecia de Moisés

Moisés (Moshe Rabenu) foi o maior de todos os profetas, superior tanto àqueles que o antecederam quanto aos que vieram depois dele. Sua comunicação profética com Deus operou de maneira direta, límpida e desprovida da mediação angélica ou de enigmas.

8. A Origem Divina da Torah (Torah min HaShamayim)

Toda a Torah que a comunidade judaica preserva foi transmitida diretamente por Deus a Moisés. Isso abrange tanto o Pentateuco escrito quanto as instruções orais que acompanharam o texto e foram posteriormente registradas no Talmud (Torah Oral).

9. A Imutabilidade e Perenidade da Torah

A Torah jamais será revogada, mudada ou substituída, e Deus nunca outorgará outra aliança ou lei para tomar o seu lugar. Nada pode ser acrescentado a ela nem nada dela pode ser subtraído.

10. A Onisciência Divina

O Criador conhece detalhadamente todas as ações, pensamentos, inclinações e intenções dos seres humanos, não ignorando nada do que ocorre no mundo.

11. A Retribuição Divina (Recompensa e Castigo)

Deus julga com justiça absoluta, recompensando aqueles que cumprem os mandamentos (mitzvot) de Sua Torah e punindo aqueles que transgridem as suas proibições.

12. A Vinda do Messias (Mashiach)

Crença firme e constante na vinda do Rei Messias da linhagem de Davi. Mesmo que a redenção demore, o fiel deve aguardá-la diariamente com perseverança, sem se dedicar a cálculos especulativos de datas bíblicas.

13. A Ressurreição dos Mortos (Tehiyat HaMetim)

Crença na ressurreição física dos mortos, que ocorrerá no tempo determinado pela vontade de Deus durante a era messiânica.

Recepção Litúrgica, Críticas e Desdobramentos Modernos

Inserção na Liturgia: Embora tenham gerado controvérsias quando publicados, os treze princípios foram absorvidos no cotidiano devocional tradicional. Eles ingressaram no livro de orações judaico (siddur) sob duas formas fundamentais: a declaração devocional em prosa Ani Ma’amin (“Creio com fé perfeita…”) e o célebre hino poético metrificado Yigdal (“Engrandecido seja o Deus vivo…”), atribuído a Daniel ben Yehudah de Roma no século XIV e cantado no encerramento de serviços do Shabat e festas.

Contestações Medievais: Pensadores ibéricos dos séculos XIV e XV, como Hasdai Crescas e seu discípulo Joseph Albo em sua obra Sefer Ha-’Iqqarim (“Livro dos Princípios”), questionaram a catalogação de Maimônides. Albo criticou Maimônides por excesso de dogmatismo ao considerar herética uma pessoa sincera que incorresse em equívocos conceituais (como atribuir materialidade a Deus por ingenuidade) e reduziu os “pilares” do judaísmo a apenas três: a existência de Deus, a revelação divina e a retribuição (recompensa e punição).

Visões das Correntes Modernas: O Judaísmo Ortodoxo continua sustentando a validade obrigatória dos treze princípios em seu sentido literal. Por outro lado, ramos liberais como o Judaísmo Reformista, o Masorti/Conservativo e o Reconstrucionista revisaram dogmas específicos (particularmente a imutabilidade estática da Torah e a ressurreição corpórea dos mortos, preferindo a imortalidade puramente espiritual da alma ou abordagens naturalistas e civilizacionais).

Fontes bibliográficas

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