Gibson Da Costa
Em sua obra magna Sefer Ha-’Iqqarim (Livro dos Princípios ou Livro das Raízes), o filósofo e rabino aragonês Yosef Albo (c. 1380–1444) formulou uma das mais influentes críticas ao dogmatismo estrito de Moshê ben Maimon (Maimônides / Rambam), voltando-se especialmente contra a tese de que qualquer equívoco conceitual sobre os artigos de fé excluiria automaticamente o indivíduo da comunidade de Israel e do Mundo Vindouro (Olam Ha-Ba).
Albo articulou argumentos filosóficos, exegéticos e morais para demonstrar que o judeu que erra de boa-fé (to’eh be-shigagah) permanece plenamente integrado à fé de Israel e à aliança divina.
O Alvo da Crítica: A Rigidez Intelectualista de Maimônides
Para compreender a resposta de Albo, é necessário resgatar a premissa de Maimônides em seu comentário à Mishnah (Sanhedrin, capítulo 10 / Perek Helek). Maimônides postulou que, se um judeu cometer todos os pecados capitais motivado pelo apetite ou pela fraqueza moral, ele será punido por suas transgressões, mas ainda assim conserva seu quinhão no Mundo Vindouro como um “pecador de Israel”. Todavia, se esse mesmo judeu rejeitar ou vacilar a respeito de qualquer um dos Treze Princípios de Fé, ele se desliga imediatamente da comunhão judaica, sendo qualificado como herege (min), apóstata ou incrédulo (kofer). No Mishneh Torah (Hilkhot Teshuvah 3:7), Maimônides aplicou essa norma rigorosamente ao declarar que qualquer indivíduo que conceba Deus com algum tipo de corporeidade ou forma física é formalmente um herege desprovido de salvação eterna.
O Precedente Crítico do Rabad
Albo resgata e aprofunda a censura apresentada no século XII pelo rabino Abraham ben David de Posquières (Rabad) contra o código maimonidiano. Em suas notas críticas (Hassagot), o Rabad reprovou a severidade de Maimônides indagando por que alguém haveria de ser chamado de herege se homens “maiores e melhores do que ele” adotaram noções corporificadas sobre Deus induzidos pela leitura literal dos antropomorfismos bíblicos e das passagens agádicas do Talmud. Albo adotou essa constatação como ponto de partida metodológico para repensar o estatuto epistemológico do erro teológico.
A Distinção entre “Erro Involuntário” (To’eh) e “Negação Deliberada” (Kofeir)
O principal argumento conceitual de Albo no Sefer Ha-’Iqqarim (Livro 1, Capítulo 2) reside na diferenciação entre o erro de interpretação e a heresia voluntária:
O Herege / Negador (Kofeir): É aquele que sabe perfeitamente que uma doutrina é um princípio ensinado pela Torah como mandamento e revelação de Deus, mas que, movido por desprezo, insubordinação ou rebeldia intencional, recusa-se a aceitá-lo. Este indivíduo rejeita a autoridade divina do texto sagrado e coloca-se voluntariamente fora da aliança.
O Fiel que Erra (To’eh be-Shigagah): É o indivíduo que aceita a santidade absoluta da Torah e deseja submeter-se sinceramente à sua autoridade, mas que, ao analisar os textos das Escrituras ou as lendas rabínicas (Aggadot), interpreta-os de maneira incorreta devido à limitação de seu raciocínio.
A Conclusão de Albo: Esse crente ingênuo incorre em pecado de inadvertência (shogeg), ou seja, um equívoco intelectual involuntário, e não em malícia moral. Como sustenta enfaticamente Albo, tal indivíduo está em erro, mas não é um descrente ou infiel (he is in error, but is not an unbeliever), preservando plenamente seu lugar no povo judeu e sua recompensa divina.
A Natureza da Fé: Intelecto, Intenção e Justiça Divina
Albo sustenta que a crença religiosa depende da faculdade de julgamento da mente. Se uma pessoa sincera é induzida por versículos bíblicos literais (que falam dos “olhos”, das “mãos” ou dos “passos” de Deus) a crer que Deus possui alguma corporeidade, ela o faz com a intenção reverente de crer naquilo que pensa ser o ensinamento da própria Torah.
Condenar essa pessoa à perdição eterna, enquanto se concede o Mundo Vindouro a quem peca deliberadamente contra mandamentos práticos, constituiria uma contradição flagrante com o princípio basilar da Justiça Divina (Schar va-Onesh). Deus, que sonda as intenções e os corações, julga o ser humano pela sinceridade moral de sua devoção (kavvanah), e não pela capacidade técnica de dominar as abstrações da metafísica aristotélica.
A Reclassificação dos Princípios: Raízes (Ikkarim) vs. Ramos (Anafim)
Para conferir coerência a esse argumento, Albo rompeu com a estrutura dos treze artigos incondicionais de Maimônides e, seguindo a linhagem de Hasdai Crescas e Simon ben Tzemah Duran (Rashbatz), reduziu os pilares vitais e indispensáveis a três grandes “raízes” (ikkarim):
A Existência de Deus (Metzi’ut Ha-Shem).
A Revelação Divina / Torah do Céu (Torah min HaShamayim).
A Retribuição Divina / Recompensa e Punição (Schar va-Onesh).
Doutrinas como a incorporeidade de Deus, a criação do mundo, a profecia mosaica, a vinda do Messias e a ressurreição dos mortos foram reclassificadas por Albo como “raízes derivadas” (shorashim) ou “ramos” (anafim). Assim, enquanto rejeitar conscientemente uma das três raízes fundamentais destrói a própria estrutura de uma religião divina, cometer um equívoco hermenêutico quanto a uma raiz derivada ou ramo não destrói o fundamento da fé.
O próprio Albo aplicou essa distinção de forma célebre na Disputa de Tortosa (1413–1414). Confrontado pelo apóstata Jerónimo de Santa Fe (Joshua Halorki), que tentava encurralar os judeus afirmando que a negação de Jesus feria o dogma messiânico maimonidiano, Albo interveio energicamente afirmando que, mesmo se fosse demonstrado que o Messias já havia vindo, ele não se consideraria um judeu pior por isso, pois a fé no Messias não constitui a base sem a qual a Torá deixaria de existir.
O Impacto Histórico e Pastoral
A refutação de Albo desempenhou um papel pastoral crucial na Espanha do século XV, marcada pelos massacres de 1391, conversões forçadas e intenso proselitismo cristão. Ao afrouxar os critérios dogmáticos de exclusão e acolher o judeu comum que errava de boa-fé em suas buscas textuais, Albo evitou que fiéis angustiados com debates filosóficos fossem empurrados para fora da comunidade judaica, oferecendo um refúgio doutrinário contra o desespero e a apostasia.
Fontes bibliográficas
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