Gibson Da Costa
O Judaísmo Reconstrucionista é uma das quatro principais correntes do judaísmo contemporâneo. Ele define o judaísmo não apenas como uma religião ou conjunto de dogmas, mas como uma “civilização religiosa em evolução” criada e mantida pelo povo judeu. Sob essa perspectiva, o judaísmo abrange a totalidade da experiência judaica, incluindo religião, história, língua (hebraico), terra (Israel), literatura, arte, música, costumes, códigos morais e vida comunitária.
Origens e Desenvolvimento Histórico
O Reconstrucionismo é a única corrente do judaísmo moderno cujas raízes são totalmente norte-americanas:
Mordecai Menahem Kaplan (1881–1983): Nascido na Lituânia e emigrado para os Estados Unidos em 1889, Kaplan formou-se como rabino no Jewish Theological Seminary (JTS). Atuou como rabino de sinagogas ortodoxas e dedicou mais de 50 anos ao ensino no JTS como professor de homilética, filosofia e reitor do Teachers Institute.
SAJ e o Primeiro Bat Mitzvah (1922): Em 1922, Kaplan desligou-se do púlpito ortodoxo e fundou em Nova York a Society for the Advancement of Judaism (SAJ). No mesmo ano, realizou na SAJ a primeira cerimônia de Bat Mitzvah da história para sua filha Judith, inovação ritual que se espalharia por quase todo o mundo judaico. Na SAJ, desenvolveu também o conceito de Synagogue Center (sinagoga como centro cultural, educacional, social e recreativo).
Formulação Teórica (1934–1935): Em 1934, Kaplan publicou sua obra-prima (magnum opus), Judaism as a Civilization: Toward a Reconstruction of American-Jewish Life, na qual criticou a Ortodoxia por seu irrealismo e o Reformismo por reduzir o judaísmo a um credo moral desprovido de vida comunitária e étnica. Em 1935, fundou a revista The Reconstructionist.
Conflito Litúrgico e Excomunhão (1941–1945): Em colaboração com Ira Eisenstein e Eugene Kohn, lançou a New Haggadah (1941) e o Sabbath Prayer Book (1945). A remoção de doutrinas como a escolha de Israel e os milagres provocou forte reação no meio tradicionalista: a união de rabinos ortodoxos decretou o extermínio religioso (herem) e realizou a queima pública de um exemplar do livro de orações de Kaplan em Nova York.
Consolidação Institucional (1968): Embora Kaplan desejasse originalmente que o Reconstrucionismo funcionasse como uma escola de pensamento transversal a todas as denominações, a resistência institucional levou seus seguidores a fundarem em 1968 o Reconstructionist Rabbinical College (RRC) em Filadélfia. O RRC consolidou o movimento como a quarta denominação do judaísmo norte-americano.
Crenças Gerais (Teologia Reconstrucionista)
Naturalismo / Transnaturalismo: Rejeita o “sobrenaturalismo” – a visão de um Deus antropomórfico ou pessoal que opera milagres e dita leis do exterior do cosmos. Deus é compreendido como o Poder ou Processo no universo e na natureza que impulsiona os seres humanos em direção à autorrealização, ao bem-estar e ao aperfeiçoamento moral.
Rejeição da Revelação Sobrenatural e do Povo Escolhido: Afirma que a Torah não foi ditada palavra por palavra por Deus no Sinai, mas é o produto da busca espiritual e da experiência histórica do próprio povo judeu. O movimento rejeita expressamente a doutrina do Povo Escolhido, por considerá-la chauvinista e incompatível com o pluralismo democrático moderno, bem como as crenças em um Messias pessoal e na ressurreição física dos mortos.
Centralidade do Povo Judeu (Peoplehood / Klal Yisrael): Resumido na célebre premissa de que “o judaísmo existe para o povo judeu, e não o povo judeu para o judaísmo”. A autoridade religiosa não pertence a um texto estático, mas à comunidade judaica em contínua evolução.
“O Passado tem Voto, mas não Veto”: A célebre máxima do Reconstrucionismo estabelece que a tradição acumulada deve ser consultada com profundo respeito, mas não possui poder de vetar as transformações necessárias para atender à consciência moral e à razão contemporâneas.
Práticas Características
Mitzvot como Folkways: Os rituais e mandamentos (mitzvot) não são vistos como leis divinas obrigatórias, mas como folkways – costumes e símbolos culturais sagrados (sancta) que expressam a identidade comunitária e enriquecem a vida espiritual dos praticantes.
Igualitarismo de Gênero e Inclusividade: Pioneiro na criação do Bat Mitzvah em 1922, o Reconstrucionismo foi um dos primeiros movimentos a admitir e ordenar mulheres no rabinato, reconhecer a linhagem patrilinear e acolher integralmente pessoas LGBTQIA+ em todos os papéis rituais e lideranças.
Liturgia Reconstruída e Acessível: A série litúrgica contemporânea do movimento (Kol Haneshamah) preserva o hebraico e o formato tradicional das orações, mas adota linguagem inclusiva/neutra quanto ao gênero de Deus e elimina formulações sobre exclusividade nacional ou punição divina.
Participação Leiga e Havurot: Nas congregações reconstrucionistas, o rabino atua primordialmente como um educador e facilitador, incentivando a tomada de decisões litúrgicas comunitárias e o modelo de pequenas comunidades de estudo e oração (havurot).
Engajamento Social (Tikkun Olam): Coloca forte ênfase na responsabilidade ética, na justiça social, nos direitos humanos e no cuidado com o meio ambiente como expressões vivas da espiritualidade judaica.
Bibliografia
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GOLDSMITH, Emanuel S.; SCULT, Mel; SELTZER, Robert M. (ed.). The American Judaism of Mordecai M. Kaplan. Nova York: New York University Press, 1990.
KAPLAN, Mordecai Menahem. Judaism as a Civilization: Toward a Reconstruction of American-Jewish Life. Filadélfia, EUA: The Jewish Publication Society of America, 1981.
KAPLAN, Mordecai Menahem. The Meaning of God in Modern Jewish Religion. Detroit, EUA: Wayne State University Press, 1995.
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CAPLAN, Eric. From Ideology to Liturgy: Reconstructionist Worship & American Liberal Judaism. Detroit, EUA: Wayne State University Press, 2002.